Teatro, política e feminismo: a possibilidade de construir uma nova história

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Uma ação de grandes proporções aconteceu no mês de março no Estado de São Paulo. Duas mil mulheres marcharam quase 100km, durante 11 dias com a coordenação geral da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e a contribuição de outros tantos movimentos e organizações feministas de todo país. Sob a bandeira “seguiremos em marcha até que todas sejamos livres”, estas mulheres finalizaram o ato na Praça Charles Müller, no dia 18 de março, com suas camisetas, estandartes, bonecas gigantes (construídas coletivamente durante a caminhada), pés cansados e sorrisos largos de quem acaba de conquistar algo muito importante.

Entre tantas possíveis análises que esta ação estimula podemos pensá-la como uma maravilhosa performance. Sua dimensão performática estaria no fato de, ao romper o cotidiano, causar um impacto estético e ser capaz de condensar um conteúdo político em ação. Para além da força humana de vermos milhares de mulheres em marcha pelas estradas, cantando, discursando, aprendendo, formando-se, havia também uma beleza no fato de ser o próprio corpo em marcha de cada mulher que estava “performando” o local do fazer político, permitindo uma nova maneira de se militar: através da potência da performance. Escolha ousada. Escolha radical.

O texto que apresenta e explica este evento da MMM começa com a pergunta: por que marchar? Diante de tantas dificuldades concretas que surgiriam durante o caminho (e surgiram realmente), por que levar adiante uma ação de tal dimensão? Certamente muitas são as respostas para estas questões (e a publicação da Marcha as expõem com clareza em relação à luta das mulheres) mas uma delas parece estar ligada ao que podemos nomear de “necessidade do chamado”. O chamado para sermos atuantes e conscientes no curso da história, da nossa história e também o entendimento de que a luta por melhores condições de vida para toda(o)s só se faz coletivamente. “Uma verdadeira comunidade e um verdadeiro diálogo – disse o filósofo e ativista Guy Debord – só podem existir onde cada um pode ter acesso a uma experiência direta dos fatos e onde todos dispõem dos mesmos meios práticos e intelectuais para decidir sobre a solução dos problemas”. Nós, artistas, poderíamos nos fazer pergunta semelhante: por que fazer teatro? E mais: por que tratar de temas sócio-políticos no teatro? Que tipo de entendimento pode se dar entre a arte e a política?

Nos jovens países da América Latina, focando ainda mais no nosso Brasil – dito país em desenvolvimento mas ainda carregando os estigmas históricos de ex(?)- colônia – onde o principal veículo de comunicação e transmissão de “cultura e pensamento” é a televisão comercial (segundo dados da Articulação Mulher e Mídia, menos de 10% da população lê jornal, 47% jamais usaram um computador e 59% nunca acessaram a internet, sem falar nos baixíssimos índices de frequentação de teatro, cinema e outros eventos culturais), a formação estética, intelectual e política de grande parte da população está submetida ao controle de alguns poucos grupos econômicos que detém o poder das concessões públicas dos veículos de comunicação.

Diante deste quadro, a disputa simbólica, do imaginário e dos meios de expressão é urgente! E a discussão política sobre as questões que envolvem opressão de gênero, violência contra a mulher e temas afins nunca possuiu tanta relação com o universo da produção artística – em especial com a performance e as artes cênicas – quanto neste início de século 21.

A maneira como a sociedade se apropria do corpo e do espaço social da mulher, com o objetivo de engessá-la dentro de uma ideologia patriarcal, é hoje objeto de estudo de artistas e coletivos como Maria Galindo & Mujeres Creando (Bolívia), Mujeres Publicas (Argentina), The Magdalena Project (Rede Internacional de Mulheres), Jesusa Rodrigues e Liliana Felipe (México), entre tantas outras, anônimas ou conhecidas, através das Américas.

Neste contexto, o Brasil já produz pensamento e ação cultural a partir das intervenções de grupos e artistas que procuram refletir os temas de gênero e patriarcado. Nós, das Atuadoras e Kiwi Companhia de Teatro, elaboramos trabalhos como o espetáculo teatral Mulher a Vida Inteira – apresentado para grupos formados somente por mulheres -, e Carne – experiência cênica que, em sintonia com movimentos sociais de mulheres, discute patriarcado e capitalismo -, respectivamente. E não poderíamos deixar de citar As Loucas de Pedra Lilás, grupo de artistas feministas de Recife e as Obscenas em Belo Horizonte, entre outras.

Como diz o dramaturgo e diretor de teatro Edward Bond: “A arte não é um remédio. Ela fornece modelos de razão e de tensão que organizam nossa experiência e dão sentido à vida. A função da arte é levar a realidade sobre o terreno da imaginação, de utilizá-la para interpretar e assim transformar o mundo social objetivo, de onde ela tira o impulso de sua transformação. A arte deve responder ao perigo de uma época.”

Se não estamos satisfeita(o)s com as desigualdades gritantes de classe, etnia e gênero e se queremos que as ideias voltem a ser perigosas, em meio a tanta apatia, o teatro – como espaço horizontal, de reflexão mútua, de reunião e assembleia, espaço provocativo e propositivo – pode ser uma ferramenta potente nesta luta de Davi contra Golias, justamente porque o teatro tem como prerrogativa a necessidade da presença e da relação direta entre os participantes desta experiência (atrizes/atores e público). Não é à toa que muitos teatros foram fechados e artistas foram perseguida(o)s durante a ditadura militar e não é à toa que hoje vivemos um outro tipo de ditadura, a neoliberal, que transforma tudo em mercadoria – talvez a forma mais cruel de calar nossa intervenção artística e política. Se as dificuldades de produção já são enormes – em parte, por conta das políticas públicas de cultura em vigor no Brasil desde o governo Sarney, que privilegiam o mercado -, elas se multiplicam quando coletivos artísticos resolvem desenvolver como tema as questões de gênero – como se este assunto não tivesse a menor importância ou as mulheres já tivessem conquistado sua autonomia (como resposta a isso basta citar os indicadores de diferenças salariais entre homens e mulheres e os índices de violência sexista).

Vale também atentar que, massacrada(o)s que estamos pela estética e dramaturgia medíocres das ficções de fácil digestão oferecidas pela indústria cultural,  é preciso não só tratar de temas políticos no teatro, mas também encontrar novas formas capazes de ativar nossa inteligência e sensibilidade.

Acreditamos que o teatro pode responder – com alegria, rebeldia e inteligência – aos desafios desta nossa época, mostrando que há alternativas onde alguns vêem somente o inevitável.

“Mulheres querem um mundo mais justo pros filhos crescerem sem susto. Mulheres querem um mundo de paz, sem elite e sem capataz. Amigas, vamos marchar. Chega de fome, pobreza e violência, Amigas, vamos marchar. Cantando pro mundo a nossa irreverência. É terra para gozar, maternidade e aborto seguros. É vida, prá navegar. E saber eleger quem respeite a quem aqui está! Vamos!”. Instigadas por esta canção das mulheres da Marcha Mundial lançamos o desafio: movimentos feministas e coletivos artísticos podem sim, juntos, contribuir na construção desta outra história, de uma história das mulheres.

Fernanda Azevedo – Kiwi Companhia de Teatro

com a colaboração de Daniele Ricieri – Atuadoras

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